sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Do lado de dentro de um sorriso


Se pararmos para pensar, é contraditório que o gesto humano de mostrar os dentes seja sinônimo de abrir uma janelinha da alma. O homem é o único animal que mostra os dentes em sinal de alegria. As outras espécies, em sua maioria, fazem-no para avisar que não estão de brincadeira. Há exceções, como o chimpanzé, que faz uma expressão parecida com a nossa para demonstrar descontração – nada que possamos chamar de alegria. Nem mesmo a “gargalhada” da hiena expressa riso ou simpatia.

Por outro lado, não é por sermos racionais que a nossa alegria tem receita. O sorriso aparece porque a alegria já está ali e pronto. Talvez seja por isso que algumas vezes é difícil ficar alegre no Natal. Essas datas “programadas para nos fazer sorrir” costumam dar um nó na cabeça. E como a alegria é uma transgressora nata, não aparece forçada, não está nem aí para a foto; ao contrário, adora bagunçar o cabelo e fazer careta. Certinha é a última coisa que uma alegria é. A arcada pode até ser alinhada, mas é no defeito que mora o selo de autenticidade de um sorriso: espontâneo, torto, escandaloso – se for perfeito estraga tudo.

Precisamos aprender a reconhecer essa sensação no momento em que ela acontece, em lugar de só notar quando ela nos falta. E compreender, de uma vez por todas, que a alegria tem um quê de anarquista. Não quer dominar o mundo nem se mete na vida alheia.

Melhor seria chamar quem está alegre de contente – veja você que palavra linda. Se o alegre é bonito, o satisfeito é meio esquisito e o feliz anda meio desgastado pelo uso, o contente diz tudo. Palavra plena, repleta, contida do suficiente. De hoje em diante, quero ficar contente. Melhor que alegre ou feliz. Olhar em volta e reconhecer: tenho motivos. Sempre tenho.



TEXTO CRIS GUERRA
CRIS GUERRA acaba de lançar Procurava o Amor em Jardins de Cactos. Escritora, e acha que até as palavras servem para vestir. @eucrisguerra

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