sábado, 6 de janeiro de 2018

Equilíbrio, Ordem, Ritmo e Harmonia


“Não podemos ser felizes se pretendemos viver sempre no mais alto grau de intensidade. A felicidade não é questão de intensidade, mas de equilíbrio, de ordem, de ritmo e harmonia.
 
A música é boa não só pelos sons, mas também pelo silêncio que contém: sem a alternância de som e silêncio, não haveria ritmo. Se queremos ser felizes enchendo de ruído todos os silêncios da vida, ser produtivos convertendo todos os lazeres em trabalho e ser reais reduzindo todo nosso ser ao agir, não conseguiremos senão produzir um inferno na terra.”

Homem Algum é uma Ilha, Thomas Merton (Verus Editora, Campinas), 2003. p. 117

sábado, 30 de dezembro de 2017

PRA COMEÇAR BEM O ANO

Por: Ed René Kivitz
#1  Não assuma compromissos do tipo “vou iniciar uma dieta”, “vou começar alguma atividade física”, “vou terminar o curso de inglês”. Esse tipo de coisa serve apenas para acumular culpa e frustração sobre os seus ombros.
#2  Trate  “lugares futuros imaginários” apenas como referência para a maneira como você vive hoje – faça valer a caminhada: se você chegar lá, chegou, se não chegar, não terá do que se arrepender. A felicidade não é um lugar aonde se chega, mas um jeito como se vai.
#3 Não pense que você vai conseguir dar uma guinada na vida apenas mudando o seu visual. É a alegria do coração que dá beleza ao rosto, e não a beleza do rosto que dá alegria ao coração.
#4  Não faça nada que vá levar você para longe das suas amizades verdadeiras. Amizades levam um tempão para se consolidar e um tempinho para esfriar, pois assim como a proximidade gera intimidade, a distância fragiliza os vínculos.
#5 Não fique arrumando desculpas nem explicações para as suas transgressões. Quando cometer um pecado, assuma, e simplesmente diga “fiz sim, me perdoe”. Comece falando com Deus e não pare de falar até que tenha encontrado a última pessoa afetada pelo que você fez.
#6 Não faça nada que cause danos à sua consciência. Ouça todo mundo que você confia, tome as suas decisões, e assuma as responsabilidades. Não se importe em contrariar pessoas que você ama, pois as que também amam você detestariam que você fosse falso com elas ou se anulasse por causa delas.
#7 Não guarde dinheiro sem saber exatamente para que o está guardando. Dinheiro parado apodrece e faz a gente dormir mal. Transforme suas riquezas em benefícios para o maior número de pessoas. É melhor perder o dinheiro que ocupa seu coração, do que o coração que se ocupa do dinheiro.
#8  Ao se olhar no espelho ao amanhecer, lembre que com o sol chega também a misericórdia de Deus: a oportunidade de começar tudo de novo.
#9 Não leve mágoas, ressentimentos e amarguras para o ano novo. Leve pessoas. Sendo necessário, perdoe ou peça perdão. Geralmente as duas coisas serão necessárias, pois ninguém está sempre e totalmente certo. Respeite as pessoas que não quiserem fazer a mesma viagem com você.
#10 Não deixe de se perguntar se existe um jeito diferente de viver. Não acredite facilmente que o jeito diferente de viver é necessariamente melhor do que o jeito como você está vivendo. Concentre mais energia em aprender a desfrutar o que tem do que em desejar o que não tem.
#11 Não deixe o trabalho e a religião atrapalharem sua vida. Cante sozinho. Leia poesias em voz alta. Participe de rodas de amizade. Não tenha pressa de deixar a mesa após as refeições. Pegue crianças no colo. Ande sem relógio. Fuja dos beatos.
#12 Não enterre seus talentos. Nem que seu único tempo para usá-los seja da meia noite às seis. Ninguém deve passar a vida fazendo o que não gosta, se o preço é deixar de fazer o que sabe. Útil não é quem faz o que os outros acham importante que seja feito, mas quem cumpre sua vocação.
#13 Não crie caso com a mulher ou com o marido. Nem com o pai nem com a mãe. Nem com o irmão nem com a irmã. Caso eles criem com você, aja com  amor, não faça  guerra. O resto se resolve.
#14 Não jogue fora a utopia. Ninguém consegue viver sem acreditar que outro mundo é possível. Faça o possível e o impossível para que esse outro mundo possível se torne realidade.
#15 Não deixe a monotonia tomar conta do seu pedaço. Ninguém consegue viver sem adrenalina. Preste bastante atenção naquilo que faz você levantar da cama na segunda-feira: se for bom apenas para você, jogue fora ou livre-se disso agora mesmo. Caso não queira levantar da cama na segunda-feira, grite por socorro.
#16 Não deixe de dar bom dia para Deus. Nem boa noite. Mesmo quando o dia não tiver sido bom. Com o tempo você vai descobrir que quem anda com Deus não tem dias ruins, apenas dias difíceis.
#17 Não negligencie o quarto secreto onde você se encontra com seu eu verdadeiro e com Deus – ou vice-versa. Aquele quarto é o centro do mundo – o mundo todo cabe lá dentro, pois na presença de Deus tudo está e tudo é.
#18 Não perca Jesus de vista. Não tente fazer trilhas novas, siga nos passos dEle. O caminho nem sempre será tão confortável e a vista tão agradável, mas os companheiros de viagem são inigualáveis.
#19 Faça sua própria lista. Escolha bem seus mestres e suas referências. Examine tudo. Ouça seu coração – geralmente é ali que Deus fala. Misture tudo e leve ao forno.
#20 Não fique esperando que sua lista saia do papel. Coloque o pé na estrada. Caso não saiba por onde começar, não tem problema. O sábio disse ao caminhante que “não há caminho, faz-se caminho ao andar”.

"Ensina-nos a contar os nossos dias para que o nosso 
coração alcance sabedoria". Salmos 90.12


sábado, 23 de dezembro de 2017

Dezembro é tempo de festa e de pensar na vida


Por:  Kie Kume

De modo muito simples, podemos dizer que as empresas, ao fazerem o balanço do ano, procuram mostrar a seus acionistas ou proprietários se houve equilíbrio entre receitas e despesas e se houve lucro. Em meio às festas de final de ano – um período precioso de descanso, reflexão e convivência mais intensa em família –, devemos reservar algum tempo para pensar na vida e fazer um balanço do quanto conseguimos avançar em nossos projetos e na realização de nossos sonhos – o que fiz, onde acertei, onde errei, o que conquistei, o que preciso mudar. Também é hora de olhar com mais atenção para as pessoas que nos cercam, de nos preocupar mais com os outros, renovando relacionamentos, reconstruindo sonhos.

Em um de seus muitos best sellers, Think Big, Pense Grande, o autor japonês Ryuho Okawa recomenda que cada um dê uma boa olhada em si mesmo. “Para que nasci? O que vim fazer nesta vida? Olhe seus dons, sua personalidade, suas qualidades. Relembre o que fez e como viveu os anos que se passaram até o presente momento. A partir daí poderá descobrir a missão e vocação que se encontra nas profundezas de seu coração”, colocando-as a serviço da família, da comunidade, do país.

“É muito difícil tentar dedicar a vida ao trabalho se você não sabe qual é sua vocação divina” diz Okawa em Trabalho e Amor, recém-lançado no Brasil. “Se um indivíduo sente o desejo de fazer um trabalho que beneficie o mundo, então não pode se dar ao luxo de ignorar as necessidades e exigências dos outros. O desejo de satisfazer os outros, o espírito de servir ao próximo são forças importantes que irão imbuir seu trabalho com a energia do amor. O amor pode ser encontrado na atenção aos detalhes e também na sabedoria de não perder de vista as necessidades dos outros.”

Nosso balanço de vida deve começar pela família, onde nasce e se alimenta a verdadeira felicidade. Primeiramente, precisamos avaliar como estamos nos relacionando com as pessoas mais próximas de nós. Se estamos num casamento ou num relacionamento sério, é fundamental checar o que cada um está fazendo para solidificar esse amor. Há comportamentos que deveriam ser banidos, por estarem manchando e enfraquecendo a relação de fidelidade entre os dois. Quando há filhos, daí a responsabilidade com que se deve fazer esse balanço é ainda maior. Nossa missão como pais está sendo cumprida? Há acompanhamento, diálogo, convivência? No papel de filhos, também é importante avaliar como estamos nos relacionando com nossos pais. Nesta época de aceleradas mudanças, são mais frequentes os desentendimentos e mais difícil a convivência entre gerações. Por isso, é fundamental sermos mais compreensivos e tolerantes, sempre abertos ao diálogo. Dezembro é um mês muito oportuno para refletir sobre a dimensão do amor em nossa família. É hora de regar essa flor com gestos de carinho e, se for o caso, com pedidos de perdão. Nunca é tarde para recomeçar.

Por conta dos vestibulares, também é um bom momento para muitos jovens avaliarem como anda evoluindo sua formação, como foi a dedicação aos estudos durante o ano. É importante ter a consciência de que, além de buscar a formação acadêmica e profissional para o trabalho, é preciso se dedicar à construção do próprio caráter, necessário à realização da vocação divina que carregamos. Bons livros devem ser companheiros permanentes nessa caminhada. “Quanto mais a compreensão da pessoa se aprofunda, mais ela tem o desejo de aprender”, diz Ryuho Okawa, incentivando os jovens a desenvolverem todo o seu potencial humano. “Os jovens possuem muitas qualidades louváveis, mas penso que, de todas elas, a melhor é sua capacidade de idealizar. Essa capacidade permite ver as coisas de maneira mais positiva e faz com que a pessoa defina suas metas com possibilidades infinitas. Quando um jovem é incapaz de nutrir ideias, então podemos dizer que é uma pessoa velha, enquanto uma pessoa de 40, 50, ou mesmo 60 ou 70 anos, cujo espírito é ainda fresco e não perdeu seus ideais, pode ser considerada alguém que ainda tem a juventude nas mãos”, diz o autor em Trabalho e Amor.

Que neste final de ano, nos empenhemos em refletir como anda nossa vida e sobre o que é preciso mudar, seja na família, nas relações pessoais, na escola ou no trabalho. Que o espírito do Natal aqueça nossos corações e renove nossas esperanças. Se não aproveitarmos nossa capacidade de criar ideais, esses ideais irão murchando dentro de nós. Boas festas!

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Meus trechos de "O MONGE E O EXECUTIVO"


"O bom é que quando estamos comprometidos com o amor a Deus e aos outros, e continuamos a investir nesse sentido, comportamentos positivos acabarão produzindo sentimentos positivos, algo que os sociólogos chama de práxis."

"Nós todos temos a tendência de ser muito sensíveis, mesmo que tentemos aparentar calma."

“Nas nossas contas bancárias financeiras fazemos depósitos e retiradas, esperando nunca ficar a descoberto”.

"O que pensamos ou no que acreditamos não tem muita importância. A única coisa relevante é o que fazemos" (John Ruskin)

"O pensamento tradicional nos ensina que os pensamentos e sentimentos dirigem nossos comportamentos, e, claro, sabemos que isso é verdade.
A práxis ensina que o oposto também é verdade. ....Nosso comportamento também influência nossos pensamentos e sentimentos"

"O modo de ser das pessoas depende das decisões, mas não das condições"

"...não tomar um decisão já é uma decisão ....- Não fazer uma escolha já é uma escolha."

"Olhe em torno de nós...os maiores prazeres da vida são totalmente grátis."

"É importante tratar outros seres humanos exatamente como você gostaria que eles o tratassem."

" Exercer influência sobre os outros, que é a verdadeira liderança, é possível para todos, mas requer uma enorme doação pessoal."

"Autoridade não pode ser comprada nem vendida, nem dada ou tomada. A autoridade diz respeito a quem você é como pessoa, o seu caráter e influência que estabelece sobre as pessoas."

"A chave para a liderança é executar as tarefas enquanto se constroem os relacionamentos."

"Se você não mudar a direção, terminará exatamente onde começou." (Provérbio Chinês)

"Li em algum lugar que não vemos o mundo como ele é, mas como nós somos...O mundo parece muito diferente dependendo da nossa perspectiva."

"Tudo na vida é relacional, tanto verticalmente para Deus quanto horizontalmente para o próximo."

"O ouvir ativo requer esforço consciente e disciplinado para silenciar toda a conversão interna enquanto ouvimos outro ser humano."

"O trabalho de tratar os outros com bondade, de ouvir ativamente, de ter e expressar consideração, de elogiar, de reconhecer, de estabelecer o padrão, de deixar clara as expectativas, de dar as pessoas condições para manterem o padrão estabelecido - isto é de fato uma missão diária"

" Alguém uma vez disse , se não tivermos um objetivo definido, nos dispensaremos em ações sem sentido."

"Quando negamos as nossas próprias necessidades e vontades e nos doamos aos outros, crescemos."

"Há muito tempo um homem chamado Syrus disse que de nada vale aprender bem se você deixar de fazer bem."

sábado, 18 de novembro de 2017

Felicidade em Viver


POR:  KIE KUME 

Em qualquer profissão, em qualquer situação, procure sempre cultivar sentimentos de justiça em relação à família, aos colegas ou aos subordinados. Ser justo é saber compreender os que nos cercam, é trabalhar por sua felicidade. Ser justo é também ter a coragem de usar um remédio amargo para reverter uma situação difícil, seja na família, na empresa ou na comunidade em que vivemos. A verdadeira justiça é a que nasce da verdade. Começa com a consciência de que somos filhos de Deus. 

É a “justiça do bom coração”, diz o autor japonês Ryuho Okawa em seu livro “As Leis da Justiça”. Okawa diz que “os iluminados não julgam o próximo. Os iluminados não tentam machucar as pessoas. E estão sempre prontos a oferecer uma boa palavra. São ignorantes os que lançam veneno no coração das pessoas. Ser bom é fazer com que muitas pessoas sintam felicidade em viver”. Para o autor, a grande compaixão é “enxergar o sofrimento e a tristeza do próximo e derramar lágrimas por ele”.

As leis humanas mudam de uma nação para outra, de uma época para outra, seguindo tradições e costumes. Uma atividade pode ser considerada ilegal em um país, não em outro, como, por exemplo, em relação ao casamento entre pessoas do mesmo sexo ou ao uso controlado de drogas. Já a justiça que nasce de um coração bom e compreensivo é eterna, porque se preocupa com a realização e a felicidade dos outros.

“Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão saciados; bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”, disse Jesus em seu conhecido Sermão da Montanha. Traduzindo essa mensagem para o mundo de hoje, poderíamos dizer “bem-aventurados” os que lutam por um mundo melhor, por justiça social, pela divulgação de ideias que conduzem à verdade e à felicidade. Bem-aventurados todos os pais, todas as pessoas, governantes e governados, que seguem esse caminho. Construirão famílias, comunidades e nações mais prósperas e felizes.

No mês de outubro, celebramos o Dia das Crianças, que precisam de exemplos de retidão e justiça para moldar um caráter que as capacite a tornar nosso País e nosso mundo um lugar melhor para se viver. Que os pais consigam ser, ao mesmo tempo, exigentes, justos e compreensivos no desafio de proporcionar aos filhos uma educação plena, que inclua formação científica, cultura, história e valores morais. 

O mesmo desafio é dos professores, cujo dia também comemoramos em outubro. Eles têm boa parte da responsabilidade de formar pessoas transformadoras.

O mundo está sedento de justiça. Há minorias que não têm seus direitos respeitados. Há centenas de milhares que não possuem uma moradia digna. Há milhões que estão à margem do desenvolvimento. O mundo anseia pelo surgimento de governantes justos, que se preocupem com os excluídos. 

A justiça que vem de Deus paira acima das leis humanas. É praticada com sabedoria, humildade e compreensão, com a consciência de que devemos, sim, atacar o pecado, mas sempre abraçando o pecador e dando-lhe condições para que volte a trilhar o caminho do bem. Quem de nós não cometeu erros ao longo da vida? Atire a primeira pedra quem não tiver pecado, disse Jesus a um grupo de seu tempo que queria apedrejar uma prostituta.

Todos nós somos chamados a cultivar sentimentos mais nobres em nossos corações. Todos nós somos chamados a participar da construção de um mundo melhor e mais justo. Se cada árvore produzir seus frutos, se cada um deixar germinar em seu coração as sementes do bem estará formada a floresta do amor.


sábado, 4 de novembro de 2017

Projeto Reformadores - Filme (2017)

O Projeto Reformadores produzido pela Doizel visa homenagear os 500 anos da Reforma Protestante contando como ela foi vivida em sua chegada ao Brasil, como ela é vivida hoje e como ela pode ser vivida no futuro. 

Feliz 500 anos! Soli deo gloria!


Reforma Protestante: 500 anos depois




“Jesus foi considerado digno de maior glória do que Moisés, da mesma forma que o construtor de uma casa tem mais honra do que a própria casa” (Hb3.3).



“Pois ele esperava a cidade que tem alicerces, cujo arquiteto e edificador é Deus”  (Hb 11.10).




Estamos próximos da data referencial para as comemorações dos quinhentos anos da Reforma Protestante. Desde aqueles dias longínquos de 31 de outubro de 1517 o mundo sofreu profundas transformações. Deus serviu-se de muitos movimentos na filosofia, na política, na arte e na economia que já estavam em curso no século dezesseis, como o cenário ideal para a Reforma de sua Igreja. 

Inegavelmente, Martinho Lutero nunca teve a intenção de separar-se da Igreja então estabelecida. Na verdade, um grande número de suas teses e durante certo período de suas contestações, o monge alemão procurava isentar o papa de quaisquer erros, pecados ou cumplicidade com os desmandos que ele estava denunciando. Somente com o passar do tempo e com o desenrolar dos acontecimentos, Martinho Lutero deu-se conta de que a Igreja não estaria aberta ao diálogo e às suas possíveis contribuições como teólogo, professor e pregador das Escrituras.

Fundamentalmente o movimento da Reforma é um evento de natureza religiosa e eclesiástica. Não era um movimento que visava reformar a estrutura governamental e política, não deseja criar novos dogmas ou novos cânones. Como disse, nem mesmo a autoridade do papa ou a legitimidade da sucessão episcopal foi questionada nos primeiros ventos reformadores. A reforma Protestante foi o desejo de se voltar o mais próximo possível, na práxis, na ética, no culto e na vida da Igreja e dos cristãos, ao padrão encontrado nas Escrituras. Para tanto, nossos pais reformadores passaram a testar no crivo das Escrituras todas as coisas que envolviam a dinâmica da fé. Aquilo que não pôde sustentar-se diante da Palavra de Deus ou que não foi possível provar como sendo diretamente ordenado pela Bíblia ou que pela luz da natureza e prudência cristã, não encontrasse respaldo nas orientações gerais inferidas da revelação bíblica, deveria ser abandonado sem mais considerações.

À luz da Palavra de Deus, mesmo a tradição salutar e multissecular precisou ser avaliada, purificada e validada. Antes disso, para comprovar o seu valor a Bíblia necessitava da autoridade dos pais da igreja e dos antigos doutores, com suas interpretações, intuições e tratados. A Reforma inverteu essa lógica, desde então, não importa quem tenha dito o quê, um pai da Igreja da envergadura de um Agostinho, um teólogo da estatura de Tomás de Aquino ou um célebre papa como Gregório o Grande, esses só devem ser ouvidos se o que ensinam sobrevivem ao teste da Palavra de Deus. Se com ela se harmonizam e se subordinam, seria uma temeridade não ouvi-los e com eles aprender. Se o que ensinam, contradizem a palavra de Deus, seria loucura, pecado, dar-lhes ouvidos e imitar a sua vida e a fé. Assim, da cátedra ao púlpito, da sacristia ao altar, dos claustros à paróquia, liturgia, pregação e ética foram sofrendo profundas depurações, correções, reformas e sendo adequadas e harmonizadas com a Palavra de Deus.

A consequência disso tudo é que o século dezesseis viu surgir um novo homem, o ‘Homo Reformatus’. Esse novo homem não é menos religioso que o seu ancestral medieval, todavia a sua fé é mais racional, mais inteligível, mais provada e alicerçada. Sua experiência do sagrado não é ‘magiada’, supersticiosa e refém do ‘tremendo sobrenatural’ que era representado nas liturgias misteriosas e incompreensíveis. O adorador reformado adora com a mente, com o entendimento, seu culto é racional na medida em que é uma resposta amorosa ao Deus que abre diálogo com ele mediante a clareza e simplicidade das Escrituras.

Esse novo homem forja também uma nova sociedade, uma nova cultura. Redescobre, a partir da Bíblia, a sacralidade e a santidade do casamento. Redescobre o casamento como um meio natural e ordinário para a santificação dos cristãos. Passa a entender que os cônjuges são chamados à mesma perfeição, às mesmas virtudes e ao mesmo estado de santidade do que aqueles que emitiam seus votos monásticos em uma ordem religiosa. O trabalho manual, a geração de renda, a dignidade da pessoa humana, da mulher, da criança e a popularização da alfabetização são outras afirmações originadas a partir de um novo entendimento da fé, da relação com Deus com base no pacto de graça realizado exclusivamente por Cristo.

Quinhentos anos depois, o canteiro de obras da Reforma da Igreja permanece ativo, ainda, como sempre e infelizmente, os operários são poucos, mas as demandas ainda estão aí. Precisamos pedir a Deus que esse homem novo, o homem bíblico, o ‘homo reformatus’, continue a ser gerado pela fé a fim de que essa obra iniciada e tantas vezes interrompida, adiante os seus dias, para que de cada povo e nação, surja uma igreja fiel. E assim, esteja muito, muito perto, a volta gloriosa de Jesus e aí, uma Igreja nova e acabada seja por Ele resgatada. Que a Reforma continue!

Por.: Luiz Fernando dos Santos (Ministro da Palavra na Igreja Presbiteriana Central de Itapira)
Fonte: www.ultimato.com.br