terça-feira, 30 de junho de 2026

Nem só de amor vive um relacionamento


A cultura se repete em filmes, músicas e frases de efeito: o amor é tudo. Basta sentir, entregar-se, acreditar – e o resto vem. Mas a vida real insiste em mostrar o contrário. Os relacionamentos terminam mesmo quando ainda existe amor. E não por maldade ou desinteresse. Porque, sozinho, o amor não sustenta uma relação.
O psiquiatra Oswaldo Petermann Neto é direto: “O amor é fundamental, mas não é suficiente. Muitas relações terminam mesmo quando ainda existe amor. Isso acontece porque um relacionamento saudável depende também de respeito, comunicação, confiança, capacidade de resolver conflitos, maturidade emocional e compatibilidade de valores. O amor é o que aproxima, mas são as atitudes diárias que sustentam a relação ao longo do tempo.”
O psicólogo Marcos Lacerda traz uma imagem que desmonta o romantismo. Uma relação para dar certo precisa ser feita no mínimo por três pessoas. Um trizal. Tem que ter pelo menos três pessoas nessa relação: eu, tu e nós. O nós não pode apagar nem o eu, nem o tu.”
Ele explica que muita gente cai na armadilha da fusão. 
“Quando as pessoas resolvem viver uma relação, elas acham que viram uma bola de ferro colada. Somos um só. Não são não. O nós é uma terceira pessoa, mas que não pode tomar o espaço nem do eu, nem do tu.”
Preservar o eu para existir junto
Oswaldo reforça a importância de manter a própria identidade dentro do relacionamento. “Preservar o ‘eu’ significa manter os próprios valores, interesses, amizades e objetivos pessoais mesmo estando em um relacionamento. Amar alguém não exige abandonar quem somos. Pelo contrário, relações saudáveis permitem que cada pessoa continue se desenvolvendo individualmente, sem abrir mão da própria essência para agradar o parceiro.”
Quando isso não acontece, o preço é alto. “Quando alguém abandona seus desejos, opiniões e necessidades para manter a relação, pode desenvolver baixa autoestima, sentimentos de vazio, ansiedade, ressentimento e até sintomas depressivos”, explica o psiquiatra.
“Com o tempo, a pessoa perde a conexão consigo mesma e percebe que está vivendo a vida que o outro espera, e não a que realmente deseja.”
Parceria ou dependência?
Uma das grandes confusões emocionais da atualidade é distinguir amor saudável de dependência. 
Oswaldo diferencia: “Na parceria, duas pessoas escolhem estar juntas porque isso acrescenta felicidade e crescimento às suas vidas. Na dependência emocional, a pessoa sente que não consegue ser feliz ou funcionar sem o outro. Enquanto a parceria é baseada na liberdade e na reciprocidade, a dependência costuma ser marcada por medo do abandono, necessidade constante de validação e dificuldade de tomar decisões de forma autônoma.”
Marcos lembra ainda que a ideia da “metade da laranja” é um enredo bonito, mas enganoso.
“Amar é suportar o mal-estar que a diferença do outro provoca em mim. Hoje as pessoas vivem procurando pessoas que sejam o espelho delas. Não vai ser. O outro é diferente de mim.”
O que sustenta, afinal?
Se o amor não é tudo, o que mais é preciso? Oswaldo enumera: “Comunicação aberta, confiança, respeito mútuo, empatia, capacidade de resolver conflitos, inteligência emocional, alinhamento de valores e objetivos de vida.” 
E complementa: “É fundamental que ambos os parceiros tenham maturidade para lidar com diferenças e compreendam que um relacionamento saudável não elimina os problemas, mas oferece recursos para enfrentá-los juntos.”
Marcos deixa o recado final, que funciona como uma bússola: “O que é amar? Amar é suportar o mal-estar que a diferença do outro provoca em mim. E a segunda coisa é compreender que uma relação precisa ter pelo menos três pessoas: eu, tu e nós. Pense nisso.”
O amor não é um escudo mágico contra os conflitos. É o que move. O que sustenta mesmo são escolhas diárias, diálogos incômodos, respeito pelas diferenças e a coragem de continuar sendo quem se é mesmo depois de tanto tempo juntos. Amar não é se anular. É, como ensina Marcos, aprender a conviver com o eu, o você e o nós. E deixar que o nós cresça sem apagar nem o eu, nem o você.

Por: DIEGO BRITO - Vida Simples. 

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